Uma obra literária tem papel educativo?

Texto de J. Alves postado em 28/07/2009
O senhor acha que ela tem também um papel educativo? Ou ela é apenas uma obra literária sem preocupações pedagógicas ou moralizantes?

Como membro do conselho editorial das Edições Paulinas, hoje Paulus, tive o privilégio de acompanhar a partir dos anos de 1970 as transformações por que passaria a literatura brasileira para crianças e jovens. Na época, o Prof. Edmir Perrotti defendia sua tese de mestrado pela ECA-Usp, sob o título A crise do discurso utilitário: contribuição para o estudo da literatura brasileira para crianças e jovens e nos procurou para um projeto gráfico-editorial, do qual surgiria uma série de publicações infanto-juvenis regidas não mais pelo discurso utilitarista e pragmático, mas pelo livro infanto-juvenil como objeto estético.
Na época, discutíamos muito o fato de que uma livro não devia “fazer a cabeça” de crianças e jovens, mas permitir que eles próprios formassem suas visões de mundo a partir do lúdico, da fruição do belo, da imaginação.
Nesta perspectiva, dava-se ao ilustrador status de criador artístico colocado no mesmo patamar do escritor, pois ilustrar um livro era também uma forma de manifestação artística.
Esta tendência prevaleceu e deu o tom das publicações infanto-juvenis não só das atuais Paulus e Paulinas, mas de tantas outras editoras que apostaram no leitor juvenil e na nova consciência dos escritores, que prezavam seu compromisso prioritário com a Arte, com a Literatura, deixando para pedagogos e religiosos o papel de “catequizar”, “moralizar" e ensinar.
Vários escritores despontaram e marcaram sua presença no cenário da literatura para crianças e jovens, como Elias José, Luiz Galdino, Lúcia Pimentel Góes, Mirna Pinsky, Eva Furnari, Rubem Alves somente para citar alguns exemplos.
Como objeto estético, o livro é uma obra aberta e dela é possível fazer várias leituras e em vários níveis. Entretanto, não tem prioritariamente finalidade pedagógica/educativa.
A fruição estética, o prazer da leitura, o caminho da fantasia e da imaginação, o faz-de conta, encerra o caráter da gratuidade, que exclui o pragmatismo, o uso de e para, a função de e para alguma coisa...
O grande problema hoje é como evitar a homogeneização dos sentimentos e dos pontos de vistas, a massificação e a padronização, que categorizam os indivíduos com números de séries e validades, anulando as genialidades. A coisificação das pessoas dispensa as opiniões próprias, o pensar divergente, e decreta a morte dos sonhos e das utopias. Será que não vivemos hoje o grande desafio da singularização das pessoas, que perdem o lastro com a sua cultura, com o seu ethos, tornando-se como animais acuados que não mais encontram o refúgio seguro de suas antigas tocas?
E aí perdem a noção de seus cheiros e odores, o toque e o calor dos seus corpos, o eco de suas “falas”, porque suas tocas foram devassadas?
Quais são os prejuízos da mercantilização da literatura, numa sociedade globalizada, utilitarista, em que tudo é pensado como um grande negócio, inclusive a arte e educação?
Ao escritor cabe resgatar o humano do homem neste avassalador processo de hominização e tecnicização que transforma o homem em objetos entre objetos.

Vania A. G. Figueiredo. Monografia sobre a obra JR e a maldição murium.

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