De longe vejo meu pai

Texto de J. Alves postado em 26/10/2021
 


De longe vejo meu pai,  imerso em sua solidão,   pela idade já perdendo o prumo,  de tanto ver já perdendo o rumo,   às vezes anda pra lá e pra cá,   com um velho baralho nas mãos,  com muita ansiedade confere as cartas,   separa os naipes,  embaralha e corta rente,  corta em cima, corta embaixo,  e distribui pros  parceiros que já se foram ou estão ausentes  e tudo se repete  como uma doce paixão  que lhe aguça os sentidos,   e como uma luz lhe alumia os trilhos e por um instante lhe devolve a vida,  ele sisudo, cheio de razões,  gritando truco, blefando a sorte  num jogo de sedução,  entre  vida e  morte,  a última cartada já não depende de si,  é esperar pra ver:  tudo ganhar ou tudo perder.

Pouco já lhe importa a jogada,  se foi um blefe  ou de cartas marcadas: Nada supera estar vivo: “viver é muito bom!” De longe vejo meu pai deitado no roto  sofá de sua memória, ele calça as botas e coloca as esporas e vagueia a esmo e a desoras nas invernadas de outros mundos em seu cavalo alazão: vai subindo ladeiras e descendo grotões, vai varando  pro fim do mundo e aos poucos vai vazando pelas fendas de um tempo sem horas como se atravessasse as corretezas de um rio brabo  e sete braças de profundo  ou como menino levado que se esconde e brinca de pega-pega num tronco oco; agora ele está olhando ao leu e contempla um céu cor de anil e como visse  em pleno dia estrelas baças, vai contando os sonhos  e inventando histórias no vazio hostil de suas mãos esgarças que nada enlaçam: cabaça quebrada no meio da estrada,  já não guarda água, não tem serventia, não vale de nada!

 

Nada supera estar vivo: “viver é muito bom!”

Cruza e descruza os dedos trêmulos abrindo covas e colocando cruzes, trança as linhas do tempo, risca o vazio galopando antigas sendas e ele vai sem ir em seu cavalo trotão que corre sem rédeas, nas palmas de suas mãos e mais uma vez ele joga o laço e golpeia  o tempo e peia o espaço com suas rezas e seu rosário tosco chicoteia seus agouros e esporeia a sangue seus lamentose ao tronco amarra os maus ventos que já cheiram a mofo,a  leite azedo e a fortes unguentos, mas o tempo é touro bravio que causa medo e fortes arrepios, tem chifres pontudos e ancas largas de grande porte que risca o chão de  sul a norte  com patas afiadas e investidas fortes e vai arando fundo e revirando o silêncio com seu olhar de fúria  e de má sorte e vai deixando na poeira os rastros da vida, um grito surdo de dor e um odor de morte, que tudo enlaça: cabaça quebrada no meio da estrada, já não guarda água, não tem serventia, não vale de nada!.

 

Nada supera estar vivo: “viver é muito bom!”
De longe vejo meu pai que vai remando na calada de suas rezas, se benze contra todo o mal, se rodeia de santos, de anjos e a Deus e à Virgem acende velas, incendeia um feixe de novenas secas e queima incenso pra esconjuros e prende na arca em um canto escuro um anjo decaído e sete espíritos impuros.

De longe vejo meu pai como um clarão na noite que se esvai, lentamente vai deixando as margens como se fosse pra outro mundo e sua velha canoa já se faz ao largo cortando as águas de um rio profundo 90 anos batendo remos contra as correntes de suas mágoas e  sozinho  navegando sonhos de pura dor de amor antigo por sete vezes amado e por sete vezes sete vezes desamado e incompreendido sua linda ainda se veste de chita, cheira a pó de arroz e usa anáguas e um brinco de marfim; nunca o vi chorar e de seus olhos jamais verteram lágrimas, tudo foi escondido, em segredo bem guardado, tudo formando mares e abismos profundos abrindo fendasno fundo de seu olhar de amar sempre cativo: cabaça quebrada no meio da estrada,já não guarda água, não tem serventia, não vale de nada!

Nada supera estar vivo: “viver é muito bom!”

E lá vai ele, já não olha para trás, não sei se feliz ou magoado ou partindo a contragosto:
ipê  amarelo plantado à minha porta, 
vai perdendo suas folhas para florescer em agosto, vai virando canoa que vai rio abaixo, à deriva de sua sorte, cada vez mais rápido, cada vez  mais distante, e assim ele vai passando como se remasse dentro de mim, aos poucos ele vai abrindo um vazio nas águas frias que banham as margens de um rio largo e sem fim: canoa parada à beira das águas, ou está furada ou é fantasma de mágoas: cabaça quebrada no meio da estrada, já não guarda água, não tem serventia, não vale de nada! Nada supera estar vivo: “viver é muito bom!”

  

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

  

 

 

  



 

 

 

 

Comentários (3)>>Clique aqui para comentar
sandra regina
Meu coraçâo de joelhos agradece o privilegio de ter lido um "sentimento' tão lindo.
30/11/2009
Carlos Eduardo A. Alves
Querido Tio,

Este texto é simplesmente um verdadeiro tesouro... mas realmente "chegar aos 90, num é brinquedo não!"...

Grande Abraço!

Seu sobrinho Carlos Eduardo (Kadu Alves)
29/09/2009
Beatriz Alves
nem eu que convivo direto com nosso pai ; saberia falar com tanta verdade e emoçâo o que voce falou sobre ele. Me emocionei demais....
Beijos Bia.......
04/09/2009

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