De longe vejo meu pai

Texto de J. Alves postado em 05/09/2009

De longe vejo meu pai imerso em sua solidão,

pela idade já perdendo o prumo,
de tanto ver já perdendo o rumo,

às vezes anda pra lá e pra cá,

com um velho baralho nas mãos,
com muita ansiedade confere as cartas,

separa os naipes, embaralha e corta rente,

corta em cima, corta embaixo,
e distribui pros  parceiros que já se foram

ou estão ausentes
e tudo se repete  como uma doce paixão

que lhe aguça os sentidos, 

e como uma luz lhe alumia os trilhos

e por um instante lhe devolve a vida,

ele sisudo, cheio de razões, gritando truco,

blefando a sorte num jogo de sedução,
entre  vida e  morte, a última cartada já não depende de si
é esperar pra ver: tudo ganhar ou tudo perder.

Pouco já lhe importa a jogada,

se foi um blefe  ou de cartas marcadas:

Nada supera estar vivo: "viver é muito bom!"

De longe vejo meu pai deitado no roto  sofá de sua memória,
ele calça as botas e coloca as esporas
e vagueia a esmo e a desoras nas invernadas de outros mundos

em seu cavalo alazão:
vai subindo ladeiras e descendo grotões,

vai varando  pro fim do mundo
e aos poucos vai vazando pelas fendas de um tempo sem horas

como se atravessasse as corretezas de um rio brabo 

e sete braças de profundo
ou como menino levado que se esconde

e brinca de pega-pega num tronco oco;
agora ele está olhando ao leu e contempla um céu cor de anil
e como visse  em pleno dia estrelas baças,

vai contando os sonhos
e inventando histórias no vazio hostil de suas mãos esgarças
que nada enlaçam:

cabaça quebrada no meio da estrada,
já não guarda água, não tem serventia,

não vale de nada!

Nada supera estar vivo: "viver é muito bom!"
 

Cruza e descruza os dedos trêmulos abrindo covas e colocando cruzes,
trança as linhas do tempo, risca o vazio galopando antigas sendas
e ele vai sem ir em seu cavalo trotão que corre sem rédeas, 

nas palmas de suas mãos e mais uma vez ele joga o laço

e golpeia  o tempo e peia o espaço
com suas rezas e seu rosário tosco

chicoteia seus agouros
e esporeia a sangue seus lamentos

e ao tronco amarra os maus ventos
que já cheiram a mofo,a  leite azedo

e a fortes unguentos,
mas o tempo é touro bravio que causa medo e fortes arrepios,
tem chifres pontudos e ancas largas de grande porte
que risca o chão de  sul a norte  com patas afiadas e investidas fortes
e vai arando fundo e revirando o silêncio com seu olhar de fúria  e de má sorte
e vai deixando na poeira os rastros da vida,

um grito surdo de dor e um odor de morte,
que tudo enlaça: cabaça quebrada no meio da estrada,
já não guarda água, não tem serventia, não vale de nada!. 
Nada supera estar vivo: "viver é muito bom!"

De longe vejo meu pai que vai remando na calada de suas rezas,
se benze contra todo o mal, se rodeia de santos,

de anjos e a Deus e à Virgem acende velas,
incendeia um feixe de novenas secas e queima incenso pra esconjuros
e prende na arca em um canto escuro um anjo decaído e sete espíritos impuros.

De longe vejo meu pai como um clarão na noite que se esvai,
lentamente vai deixando as margens como se fosse pra outro mundo
e sua velha canoa já se faz ao largo cortando as águas de um rio profundo
90 anos batendo remos contra as correntes de suas mágoas
e  sozinho  navegando sonhos de pura dor de amor antigo

por sete vezes amado
e por sete vezes sete vezes desamado e incompreendido
sua linda ainda se veste de chita, cheira a pó de arroz

e usa anáguas e um brinco de marfim;
nunca o vi chorar e de seus olhos jamais verteram lágrimas,
tudo foi escondido, em segredo bem guardado,

tudo formando mares
e abismos profundos abrindo fendas

no fundo de seu olhar de amar sempre cativo: cabaça quebrada no meio da estrada,
já não guarda água, não tem serventia,

não vale de nada!

Nada supera estar vivo: "viver é muito bom!"


E lá vai ele, já não olha para trás, 

não sei se feliz ou magoado ou partindo a contragosto:
ipê  amarelo plantado à minha porta, 

vai perdendo suas folhas para florescer em agosto,
vai virando canoa que vai rio abaixo, à deriva de sua sorte,
cada vez mais rápido, cada vez  mais distante,
e assim ele vai passando como se remasse dentro de mim,
aos poucos ele vai abrindo um vazio nas águas frias
que banham as margens de um rio largo e sem fim:
canoa parada à beira das águas, ou está furada 

ou é fantasma de mágoas:

cabaça quebrada no meio da estrada,
já não guarda água, não tem serventia, 
 

não vale de nada!

Nada supera estar vivo: "viver é muito bom!"

 



 

 

 

Comentários (3)>>Clique aqui para comentar
sandra regina
Meu coraçâo de joelhos agradece o privilegio de ter lido um "sentimento' tão lindo.
30/11/2009
Carlos Eduardo A. Alves
Querido Tio,

Este texto é simplesmente um verdadeiro tesouro... mas realmente "chegar aos 90, num é brinquedo não!"...

Grande Abraço!

Seu sobrinho Carlos Eduardo (Kadu Alves)
29/09/2009
Beatriz Alves
nem eu que convivo direto com nosso pai ; saberia falar com tanta verdade e emoçâo o que voce falou sobre ele. Me emocionei demais....
Beijos Bia.......
04/09/2009
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