Ler muito pode atrapalhar o processo de criação?

Texto de J. Alves postado em 28/07/2009
O senhor leu bastante sobre literatura infanto-juvenil ou acha que isso poderia atrapalhar seu modo de escrever?

Acompanhei, como editor, as mudanças por que passou a literatura para crianças e jovens. Por força do ofício, li bastante livros, para opinar sobre sua publicação ou não. Cada escritor tem seu estilo, seu modo de escrever. Meu processo criativo é sossegado, natural, sem pressa.
Tenho meu próprio ritual. Passo muito tempo negaceando as idéias. Observo de longe, depois de mais perto. Converso. Sonho. Depois toco, acarinho. Abraço e beijo. Tudo como se fosse um caso de amor, de paixão. E o milagre da entrega acontece. Assim procedo por razões óbvias. Primeiro, porque reconheço que pequeno é meu latifúndio.
Da literatura apenas faço cultura de subsistência de meu espírito. Planto e colho de meu quintal. Sei quando nasce, cresce ou morre cada fiapo de erva, quando cada pétala se esmaece e cai. Reconheço o cheiro e o odor de cada planta e percebo os insetos e os vermes que reviram a terra. Sei também que tudo isso se mistura em mim, como numa alquimia cósmica.
Eu também nasço e broto, desvaneço e renasço na tessitura de meus textos. Sou assim e escrevo assim. Escrever é fazer um jogo franco e honesto consigo mesmo. Adoro a comida trivial e fazer a minha própria salada, colhendo diretamente a verdura de minha horta.
Não ignoro que vivemos em um país que lê pouco, que não cultiva o hábito da leitura. Vivemos em um país formado por restos culturais, como o desapreço pela leitura.
Segundo, porque escrever é um ato de liberdade e de gratuidade. É um ato de entrega, de resiliência, de perseverança, de crença, de ascese. É um jogo entre Deus e o Diabo.
É um mergulho nas profundezas do espírito humano. Não tem preço. Não é utensílio que serve para alguma coisa. Aliás, não serve para nada. É apenas fruição.
É perfeitamente possível passar uma vida inteira sem ler Guimarães, Clarice, Machado de Assis, Fernando Pessoa, Cruz e Sousa, Dostoievski e tantos outros, sem ouvir os clássicos da música e do cinema ou apreciar uma obra de arte.
Entretanto, caminhar à luz dos que engrandeceram o espírito humano pode ser uma condição de tornar a vida mais iluminada e mais digna de ser vivida, uma forma de felicidade, de iludir o iniludível.

Vania A. G. Figueiredo. Monografia sobre a obra JR e a maldição murium.

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