O Ato de escrever...

Texto de J. Alves postado em 28/07/2009
Como surgiu a idéia de escrever JR e a maldição murium? O senhor chegou a pensar em quem seria o leitor de seu livro?

Cada escritor tem seu processo criativo. Entretanto, cada escritor é filho de seu tempo. Daí que as idéias não brotam de um vazio, mas da atenta postura de observação do escritor. O mais importante não é aquilo que acontece ou está acontecendo, mas a re-significação que se dá ao evento. Vista de fora uma árvore é uma árvore, um pássaro não passa de uma ave. Porém, para o escritor atento, uma árvore não é simplesmente uma árvore, um bem-te-vi não é simplesmente uma ave.
Tudo se pode transformar em uma grande metáfora. Tudo se pode virar “matéria poética”, construção e desconstrução poética. Retomo e interpreto a meu modo o conceito Sitz im Leben, utilizado em exegese bíblica, entendendo-se por isso a situação ou contexto vital em que o texto se produz ou foi produzido.
Assim, JR e a maldição murium foi motivado por uma situação regular e nasce da intersecção de um evento real e sua re-significação em matéria poética.
Este evento real tem base em alguém que por onde passa deixa sempre um resto, restos e mais restos, e este alguém tem um nome e identidade, é real, mora em uma casa, etc. Por que sempre deixa restos? O que se pode entender por “restos”?
Ora desta situação regular, ou deste contexto vital e motivador, os “restos” traduzem-se na grande metáfora da obra: na realidade JR (Zé Restinho”) somado, dividido e multiplicado, leva-nos à idéia de que o ser humano, apesar de sua pretensa razão e unicidade de ser, é o resultado da poeira cósmica acumulada ao longo de milhões de anos, na periferia do universo, mais exatamente num planeta azul chamado Terra que, por sua vez, foi o que restou da expansão do universo.
Como se pode ver, do insignt de uma idéia (restos), outras idéias ganham forma na imaginação e se projetam em mundos que se compenetram e se explicam metaforicamente: o que é o ser humano senão aquele que vive de restos civilizatórios e marca a sua passagens por tantos outros restos, porque no afã de se sustentar ele arrasta consigo sua tralhas e badulaques cujo peso o oprime e o verga à medida que tempo passa, obrigando-o a se desfazer aqui e acolá dos restos que marcam a sua transitoriedade para enfim desfazer-se de si mesmo e retornar à poeira cósmica da qual a vida se alimenta e continuamente se recria.
Dessa maneira, acredito que o primeiro leitor a se pensar quando se escreve um livro é o próprio escritor, pois ele escreve no afã de sustentar “a leveza de seu ser”.
Ele escreve para si. Ele penetra as várias trilhas ocultas dentro de si para descobrir que o segredo de seus enigmas se escondem no totem que guarda seu passado, seu presente e seu futuro: sua discursividade.

Vania A. G. Figueiredo. Monografia sobre a obra JR e a maldição murium.

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