Escrever para crianças e jovens

Texto de J. Alves postado em 28/07/2009

O que o levou a escrever obras para crianças e para jovens?

Fotos: Nilo Machado. Representação teatral baseada no livro JR e a Maldição murium.

Antes de responder esta pergunta, gostaria de pontuar algumas considerações sobre o ato de escrever ou da produção literária/poética. Pode soar estranho, mas partilho da idéia de que antes de tudo o fazer poético é um ato personalíssimo, único, singular, em que o escritor se projeta ocultando-se por trás de suas infindáveis máscaras que se apõem na sucessão de seus personagens.
Em outras palavras, o ato poético é um des-velamento das diversas faces ocultas da subjetividade do escritor, o qual se traveste, por meio de um ritual de encantamento e desencantamento, em cada uma de suas personagens, que compõem a polifonia de seu texto. Procura construir na multiplicidade de vozes uma unicidade, ou seja a sua obra ficcional.

Trata-se de uma individualidade paradoxalmente múltipla ou de uma singularidade possuída e habitada por tantos “outros”. Uma santidade, na acepção originária do termo que implica o sentido de “coisa separada”, “coisa privada”, mas que, ao mesmo tempo, se torna coisa pertencente a todos, como é próprio do espírito humano, que pervade e se manifesta em cada indivíduo, e unicamente nele enquanto sujeito histórico, na transitoriedade do tempo, transformando-o em um discurso humano, em um texto que se veste de pele humana.

Todo ser humano busca, a seu modo, escrever-se a si mesmo, seja por meio de uma arte, seja por meio de um quefazer. Escrever, pois, é antes de tudo um verbo intransitivo, que pode vir a ser transitivo direto ou indireto.

Escrevo, simplesmente. É um fazer que se volta para si mesmo, alimenta-se de si mesmo e se esgota em si mesmo, porque todo ponto de vista é vista de um ponto, ou seja é reconstrução e re-significações de eventos mentais a partir do sujeito que sente, deseja, imagina, concebe, interpreta, atribui significações...

É como num deserto escaldante pressentir um veio de água, cavar um poço, descobrir a água e deixá-la que espontaneamente se transforme em mina de água cristalina. Cavo a fonte para mim, para, primeiro, mitigar a sede, me saciar sorvendo o que se encerra em cada palavra, cada frase que forma o meu texto e, assim, resgatar o sopro da vida. Fico ali, contemplando o mistério da vida, enquanto as palavras fluem carreando frases e extravasando por entre os dedos do tempo.

Na fonte de água (no texto) consigo deter a vida e aprisioná-la nas malhas de um fluir que se dá sem se esgotar. Se alguém quiser, tiver sede, venha e beba. Se tiver sensibilidade e poder de encantar-se que se debruce sobre as metáforas e imagens e se deixe transportar pela imaginação e pela fantasia aos mundos do faz-de-conta.

Portanto, antes de tudo escrevo para meu próprio desencantamento, pois desencantando-me posso rir de mim mesmo e, no riso calado de mim, suportar a dor de ex-sistere, de existir fora de mim mesmo, sabendo que estou preso irremediavelmente à vida, embora tenha que morrer a cada instante.
Postas estas considerações, tenho por mim que o ato de escrever obras para crianças, jovens ou adultos é mera conseqüência.

É uma questão menor, já que uma obra que se diz literária vale por si mesma, tem valor intrínseco e não é escrita com o intuito de ensinar ou com finalidades pedagógicas. com uma em si e não não depende se exime de qualquer utilitarismo.

Não creio que alguém se tornará melhor ao ler minhas páginas, pois no barco da vida ninguém leva ninguém e por ninguém é levado. A vida, sim, esta é o oceano que nos conduz e nos arrebata. A literatura é o preço que pagamos na vã tentativa de nosso resgate e por nossa sede de água doce neste mar de sal ou nesse deserto de miragens.

Vania A. G. Figueiredo. Monografia sobre a obra JR e a maldição murium. 6º semestre de Letras - 2007


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